Em corporação majoritariamente masculina, bombeira supera desafios e preconceitos

A capitã Sâmila Ribeiro constata fazer parte de uma minoria no Corpo de Bombeiros, mas quebra estereótipos ao comprovar sua capacidade

Entre resgates e combates a incêndios, a adrenalina, o preparo físico e a dedicação fazem parte do cotidiano de um bombeiro. É um ofício que exige força, mas também sensibilidade, provando que estes dois elementos não se contrastam, mas se complementam. O conceito de heroísmo ligado à profissão alimenta, no imaginário de alguns, sua relação com a masculinidade. Mas a crescente representatividade feminina na instituição prova que salvar vidas, assim como qualquer serviço, não possui pré-requisitos de gênero.


Quando, aos dez anos, Sâmila de Souza Ribeiro, hoje com 30, entrou para o Colégio Militar do Corpo dos Bombeiros do Ceará (CMCB), se deparou com sua primeira referência feminina na área, a Tenente Busson, que despertou sua paixão pela profissão. Em 2005, Sâmila prestou um concurso de três vagas para mulheres bombeiras e foi aprovada. Durante os três primeiros anos, fez o Curso de Formação de Oficiais (CFO), onde o exercício físico e os ensinamentos eram os mesmos para homens e mulheres. Apesar disso, dos 30 alunos do curso apenas quatro eram mulheres.


Ao ingressar de fato no Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Ceará, Sâmila se deparou com uma associação 98% masculina. A situação não a desanimou, mas a bombeira teve que se habituar e provar que era capaz de realizar as mesmas atividades que todos. “Infelizmente, no Ceará, ainda somos 2% da corporação. Espero de verdade que esse quadro mude. Acho que falta encorajamento das mulheres para exercer funções predominantemente masculinas, e um mecanismo que auxilie que os concursos militares tenham a mesma quantidade de vagas para homens e mulheres”, relata.


Outra situação percebida foi o reflexo dos papéis sociais de gênero dentro da organização. Na divisão de tarefas, a maioria das mulheres vai para serviços administrativos. Já no processo de entrada, também há diferenciação no que se refere à disponibilidade de espaços. Geralmente as mulheres ficam com 10% das vagas de um concurso. Atualmente capitã, Sâmila Ribeiro defende que metade das vagas seja destinada ao sexo feminino ou até mesmo que não exista essa distinção.

“Infelizmente, no Ceará, ainda somos 2% da corporação. Espero de verdade que esse quadro mude”

Sâmila Ribeiro, 30

O preconceito ao ver uma mulher em uma posição de liderança e de função militar se agrava, por outro lado, com a demonstração de feminilidade. A bombeira afirma que a concepção de que o militarismo faz parte apenas do espectro masculino, prejudica as mulheres que reivindicam sua maneira de expressar seu gênero através do uso de maquiagens e acessórios, e não sentem a necessidade de adotar comportamentos supostamente masculinos.


Ainda assim, ser bombeira, para Sâmila, representa uma realização. “Amo a cor do meu uniforme, os meus companheiros de trabalho, as ocorrências. Ser bombeira é doação. De tempo, de vida. Pra exercer uma profissão como essa você tem que ter a certeza de que nunca vai ter muito dinheiro, não vai poder programar viagens em feriados, vai trabalhar no fim de ano, dia das mães, aniversário. É ser altruísta”, completa a capitã.


Violação aos direitos humanos

Em 2016, um ponto do edital de um concurso público do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) gerou polêmica no que diz respeito aos direitos da mulher. A seleção exigia que os candidatos se submetessem a 26 exames complementares, sendo um deles o de colpocitologia oncótica, mais conhecido como Papanicolau, utilizado para prevenção do câncer do colo do útero.


O que gerou maior discussão no caso foi o grau de invasão do exame e o tipo de comprovação necessária para prestar um concurso. Não houve requisito similar para os homens. Segundo o edital, “a candidata que possuir hímen íntegro” estaria isenta do exame desde que comprovasse, por meio de atestado, com identificação de médico ginecologista.


Após o posicionamento de membros da Ordem dos Advogados do Brasil no Distrito Federal (OAB/DF), da Secretaria de Segurança e Paz Social e do governador Rodrigo Rollemberg acerca do conteúdo machista da cláusula e por ofensa à intimidade da pessoa humana, o CBMDF decidiu rever a exigência. Em novo texto, a apresentação do referido exame é dispensada.


Em reportagem do site Concursos, do Correio Braziliense, Max Kolbe, consultor jurídico e membro da Comissão de Fiscalização de Concursos Públicos da OAB/DF, afirma que o requisito fomenta a instrumentalização da distinção de gêneros. “Ora, se é verdade que uma de suas razões é investigar se a mulher possui ou não HPV, porque não se exigiu os exames correlatos aos homens?”, contesta.

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