A situação e a representatividade feminina negra na sociedade

Estudante de Ciências Sociais revela as dificuldades enfrentadas diariamente devido sua cor, e mostra como reagir a essas ocasiões

As minorias são grupos sociais que estão em situação de subordinação a um grupo que é visto como dominante pela sociedade. Mulheres, por exemplo, são minoria quanto se trata de direitos, voz e igualdade. Negros também pertencem às minorias, e isso se deve à realidade histórica brasileira, onde negros eram escravizados, e aos estereótipos que são reforçados todos os dias. Se esses dois grupos separadamente já sofrem na sociedade, mulheres negras então se tornam alvo de descriminação cada vez mais.


Izabel Accioly, 29 anos, é negra, mãe solo, feminista e pesquisadora da área de sistema prisional e crime organizado. A graduanda em Ciências Sociais pertence aos 27% da população que corresponde à quantidade de mulheres negras no país. Apesar do índice elevado, pessoas como Izabel, que se enquadram nesse perfil, sofrem preconceitos recorrentemente.


Ela comenta que já chegou a se sentir inferior a outras pessoas em decorrência de comentários voltados a sua cor. “Já aconteceram momentos difíceis, principalmente no meio acadêmico, que me fizeram duvidar da minha capacidade, de me fazer rever se a universidade pública gratuita e de qualidade era um espaço para mim. Muitas vezes eu fui a única aluna negra da sala de aula e tive minha fala silenciada, mesmo que inconscientemente, por parte de pessoas com quem estudei”, ressalta a estudante.


No período da escola, assim como a maioria das crianças e adolescentes a jovem sofreu o famoso bullying entre os colegas de turma, por ser uma das poucas negras. Mas reconhece que foi privilegiada por ter o apoio de sua mãe, que sempre sensível a defendia de muitas ofensas. Essas situações tornaram Izabel mais forte e resistente aos insultos que estariam por acompanhá-la na vida adulta.


Todas as mulheres já ouviram, pelo menos uma vez na vida, comentários machistas e ofensivos, mesmo que tenham sido emitidos despretensiosamente. Izabel revela que costuma se posicionar no momento em que percebe os comentários ou atitudes machistas, racistas, homofóbicos ou que de qualquer modo desrespeitem os direitos humanos. “Acredito que a mudança virá através da micropolítica, da revisão dos pequenos atos e da compreensão de que certos discursos, alguns até encarados como piadas, precisam ser alterados. Por acreditar nisso, corrijo e problematizo a pessoa no ato sempre que possível” acrescenta a estudante.

"Insegurança feminina vende"

Izabel Accioly, 29

De fato, um dos fatores que contribuem para o preconceito e os estereótipos femininos, é a mídia, que vende um padrão de beleza. Izabel acredita que os padrões de beleza devem ser quebrados. Segundo ela, as pessoas são diversas e não é a indústria da moda ou a vontade dos homens que devem ditar o modo que as mulheres devem ser, vestir e se portar. “Esses padrões só servem para vender modelos que são inatingíveis e fazer crescer uma indústria que se alimenta da insegurança das mulheres. Resumindo: a insegurança feminina vende.”


Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, INFOPEN, mais de 70% dos presos do país são negros, muitos destes presos injustamente. Ao comentar sobre estes dados, Izabel diz que o sistema punitivo brasileiro é extremamente seletivo. Essa seletividade penal pode ser percebida no modo como o sistema constrange e seleciona uma determinada parcela da população. Na prática, os brancos e ricos recebem tratamento bem diferente dos pretos e pobres.


Em consequência a essa seletividade penal, os atingidos são da população pobre, preta e periférica. Izabel acrescenta que, além disso, os mais afetados são as pessoas que cometeram crimes contra o patrimônio e o tráfico de drogas, sendo que muitas vezes são as mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social quem mais responde por esse tipo de crime.


Izabel ressalta que é triste esta realidade, que vai de casos extremos a coisas aparentemente simples, e pode machucar muito quem sofre. “Uma situação que mais me afetou foi, ao apresentar um trabalho em uma reconhecida universidade pública brasileira, perceber que as pessoas que ouviram atenciosamente as falas anteriores, na minha fala começaram a dispersar, a rir e a sair do auditório. O fato é que eu era a única mulher negra e nordestina do ambiente. As outras pessoas, em sua maioria eram homens e brancos. Apesar dessa diferença de perfil, possuíamos todos formação similar ou igual.”

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